Condução compartilhada, uma proposta de evolução natural para Dança de salão

Dança é movimento, movimento é vida, logo dançar a dois num salão de baile é estabelecer uma convivência social através do diálogo corporal. Nesta relação de convivência social estabelecida através da dança de salão costuma-se manifestar comportamentos advindos de herança cultural que definem a conduta dos praticantes. Como por exemplo, afirma-se com quase unanimidade que quem conduz na dança de salão é o homem. Esta afirmação ainda nos dias de hoje é um paradigma e um dogma que poucos refletem a respeito. Observo muitos professores de dança de salão simplesmente replicando o modelo tradicional e alunos absorvendo sem pensar, questionar e propor algo diferente que permita avanços.

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Ao observar a evolução em alguns comportamentos sociais, onde as mulheres conquistaram direitos e se empoderaram, resolvi faz alguns anos atrás realizar uma pesquisa na escola onde sou proprietário e ministro aulas de dança de salão para saber se os alunos e alunas concordavam com a afirmação citada anteriormente. A resposta foi sim, eles e elas concordaram que o homem é quem conduz e a mulher é quem dever ser conduzida. Foi aí que pude compreender que este modelo está mais enraizado em nossa sociedade do que eu supunha. Observo que inexiste diálogo neste modelo, onde só o homem (gênero masculino) conduz – entendendo condução como ação de conduzir, levar, direcionar- e a mulher (gênero feminino) esperar a condução. Visto que diálogo é uma conversa respeitosa onde as pessoas compartilham expressando o que pensam, sentem e consequentemente querem. Sei que tem mulheres que querem somente ser levadas, mas também sei que existe muitas delas que querem exercer seu direito e fazer uso da liberdade que lhes cabe para movimentarem-se conforme suas vontades, inclusive propondo movimentos, ou seja, passos e direções aos homens. Então porque cerceá-las, limitá-las e/ou impedi-las? Porque não podemos instituir verdadeiramente um diálogo corporal em que a mulher ao participar com o homem da condução da dança a dois compartilha a responsabilidade e colabora muito no enriquecimento da dança dos dois?

Mas, muitos já me falaram: “assim dá certo, está bom, isso sempre foi assim, dá muito trabalho mudar”. Respeito quem já está feliz com o modelo tradicional. Mas entendo que isso não deva servir de desculpa e nem impedir a evolução da dança a dois. Pode-se superar o monólogo imposto na dança de salão pela cultura muitas vezes machista com esforço, conhecimento, sensibilidade, flexibilidade, gentileza, paciência e respeito a individualidade de cada um, independente do gênero.

Farei uma analogia para ilustrar esta questão de condução na dança de salão. Imagine que o casal ao entrar numa pista de dança seja como se eles estivessem entrando num automóvel, onde neste automóvel o banco do motorista fosse de uso obrigatório do homem e o do carona de uso obrigatório da mulher. O homem tem a responsabilidade e obrigatoriedade de dirigir, planejar o destino, escolher o caminho, determinar a velocidade, além de cuidar para não bater em ninguém. Já a mulher observa atenta a direção do homem, a paisagem, e o segue podendo até quando segura, fechar os olhos para sentir o balanço do automóvel e relaxar. O homem devido a sua obrigação jamais poderá fechar os seus olhos, primeiro por que não se concebe esta possibilidade, segundo por que nem ele nem ela estudam e praticam para compartilharem a condução da dança, ou seja, ela não sabe propor no tempo e com o jeito apropriado os movimentos e ele não sabe processar, interpretar e consequentemente responder adequadamente as propostas dela. Com isso afirmo que tanto a direção de um automóvel, quanto a direção de um casal na pista de dança pode ser realizada tanto pela mulher quanto pelo homem, pois fica claro que não é o gênero que determina quem dirige.

Entendo que em qualquer aspecto da vida, inclusive na dança a dois, pode dirigir, comandar, liderar, quem tem conhecimento e vontade. Definitivamente depois de mais de 12 anos dançando e ministrando aulas de dança de salão estou convicto que não é o gênero que determina quem conduz na dança de salão, mas sim a cultura imposta pela tradição, o conhecimento que capacita e a vontade criada por estímulos ou necessidades de quem precisa e quer conduzir.

 

  1. Zeh Colmeia BALBOA - 6 de outubro de 2015 em 23:28

    Concordo e compartilho quase que totalmente quanto essa elucidação de quem conduz e de quem é conduzido. Acredito sim na partilha e no direito de que ambos possam, em certos momentos, direcionar sua dança, porém, só gostaria de ressaltar que devido ao abraço do casal, a visão do homem torna-se mais fácil de conduzir a dama pelo salão, pois a dama ficaria dificultada pela posição ora muitas vezes de costas ou pelo giro pelo salão dar-se no sentido anti-horário, cabe ao homem maior responsabilidade neste aspecto…

  2. Rafael Boese - 18 de novembro de 2016 em 07:38

    Delicado o assunto, pois a questão não é a mulher conduzir ou não, porque por várias vezes faço exercícios onde a mulher conduz e é bom.
    Agora, deixar esse diálogo livre, é como tudo na vida onde dependemos da ponderação, se houvesse ponderação entre as pessoas, a lei não seria necessário.
    No exemplo de dirigir o carro, quantos volentes existem? Ou um está no volante ou outro, a não ser que seja auto escola, rs.
    Se for levar em conta a questão de que na condução já existe uma quantidade x de contato e resistência, até que ponto essa “sugestão” de movimento já não acontece?
    Bom o ponto de vista, mas não acredito ser machismo a questão do homem conduzir, acredito ser um método que pode conter um paradigma. O preconceito existe dentro de cada um, de sexo, raça, religião, dizer que o homem conduzir é machista, de certo modo incita a meu ver esse preconceito e gera uma “disputa” que pode impedir que a condução compartilhada aconteça harmonicamente.

  3. Edna Gazonatto - 18 de novembro de 2016 em 14:39

    Uso a mesma analogia em minhas aulas. No entanto, acrescento que a mulher é, além de passageira, o próprio carro. No começo do aprendizado, desenvolvendo sua sensibilidade, ela vai respondendo à condução do motorista, cuidando para ser um “carro” bem regulado, conforme vai preparando seu corpo de dança. Com a prática ela passa a exercer também a função de co-piloto quando já é possível sugerir ao condutor, com sutis movimentos, outros caminhos que não os propostos por ele. É aí então que os papéis se invertem e o condutor passa a desenvolver sua sensibilidade para “ouvir” a dama; aceitar, esperar e ir com ela em sua viagem. Começa o diálogo.

  4. Jóina Freitas Borges - 4 de janeiro de 2017 em 14:26

    Gostaria de saber quem foi o/a autor (a). Adorei o texto, concordo em absolutamente tudo. O lugar dx motorista não precisa ser do homem. O lugar dx motorista pode ser do homem ou da mulher. A mulher também tem vontade de dirigir, de propor os movimentos que mais gosta, de evoluir no salão. Porque esse papel cabe somente ao homem? Porque sim, é uma cultura machista e porque a mulher não é ensinada a conduzir. Há apenas um volante no carro, mas tanto um homem como uma mulher pode sentar na direção, afinal não é com a genitália que se dirige e sim com as mãos, pés e, principalmente, com o cérebro!

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